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Quando a rotina me mantém de pé

Mudanças inesperadas me desorganizam profundamente. Preciso de rotina, previsibilidade e estrutura. Viajar, por exemplo, só é possível quando tudo é planejado com antecedência: datas, horários, trajetos, local, rotina e até possíveis imprevistos. Sem isso, a ansiedade toma conta antes mesmo da viagem começar. Por isso, minha esposa organiza nossas viagens meses antes. Ela planeja cada detalhe com calma, antecipa informações, constrói o caminho antes de a viagem existir de fato. Esse cuidado não é excesso de controle: é acolhimento. Quando sei o que vai acontecer, meu corpo se acalma. Minha mente encontra chão. E a viagem deixa de ser ameaça para se tornar possibilidade. Rotina não é rigidez. É sustentação. E, às vezes, também é amor em forma de planejamento.

O barulho cansa mais do que o trabalho

Ambientes barulhentos me adoecem. Conversas paralelas, falas altas, ruídos constantes não são apenas incômodos: são agressivos. No trabalho, muitas vezes o cansaço não vem da tarefa, mas do ambiente. O barulho consome energia, desorganiza o pensamento e aumenta a ansiedade. No fim do dia, não estou cansado porque trabalhei demais. Estou exausto porque precisei filtrar estímulos o tempo todo. Autismo também é isso: lutar para pensar em ambientes que não silenciam.

Quando tudo é dito nas entrelinhas

Tenho muita dificuldade em entender mensagens implícitas, ironias, metáforas e falas indiretas. Quando algo não é dito de forma clara, objetiva e direta, eu simplesmente não entendo por completo. Se um texto usa códigos, significados escondidos ou espera que eu “deduza” algo que não está explícito, eu travo. Nessas situações, muitas vezes preciso que outra pessoa me explique: “o que exatamente esse texto quer dizer?” Isso acontece muito em pregações religiosas. O pregador faz a exposição do tema, mas quando entra nos exemplos “nas entrelinhas”, nas metáforas ou nas mensagens indiretas, eu me perco. As pessoas ao redor parecem compreender naturalmente. Eu não. Na faculdade, isso foi ainda mais difícil. Os textos de sociologia são, em grande parte, escritos nas entrelinhas. O autor não diz tudo de forma direta. O professor faz perguntas esperando respostas que não estão literalmente no texto. Os colegas entendem rápido. Eu não. Eu estudava, lia, relia, tentava entender… mas não era fácil...

Contato visual

Contato visual não é atenção, é sobrecarga Desde criança, olhar nos olhos das pessoas me causa desconforto. Não é desinteresse, não é falta de educação e não é arrogância. É sobrecarga. Quando alguém exige contato visual, meu cérebro precisa dividir energia entre ouvir, compreender, formular resposta e sustentar o olhar. Isso reduz drasticamente minha capacidade de entender o que está sendo dito. Por isso, muitas vezes olho para outro ponto, para a mesa, para o chão ou para o vazio. É assim que consigo escutar melhor. É assim que consigo processar. Autistas não precisam ser treinados para olhar nos olhos. O mundo é que precisa aprender que atenção não se mede pelo olhar.

Feliz Natal

Jesus veio para todos (inclusive para quem se sente quebrado) Jesus não veio apenas para os que se acham fortes. Ele não veio só para os inteligentes, os bem-sucedidos, os que falam bonito, os que se encaixam, os que parecem espiritualmente corretos. Jesus veio para todos. Veio para quem carrega falhas. Para quem convive com limites. Para quem tem um “ espinho na carne ” que não escolheu, mas aprendeu a suportar. Para quem se sente inadequado em um mundo que exige perfeição o tempo todo. O amor de Cristo nunca foi um prêmio para os perfeitos. Sempre foi remédio para os feridos. Quando Jesus se aproxima, Ele não pergunta se a pessoa é funcional, produtiva, forte ou admirável aos olhos da sociedade. Ele olha o coração cansado, a alma sobrecarregada, a história marcada por rejeições silenciosas. E é nesse encontro que algo muda. Não porque a imperfeição desaparece, mas porque ela deixa de ser um motivo de vergonha. Em Cristo, a falha não define o fim da história. O limite não é sentença...

Eu pareço funcional, mas não é tão simples

Muitas pessoas olham para mim e veem alguém funcional. Eu recebo uma tarefa, executo e entrego. Vou ao mercado, resolvo questões do trabalho, cumpro rotinas. Para quem observa de fora, parece simples. Para mim, não é. Antes de qualquer tarefa, minha mente cria vários quadros ao mesmo tempo. Penso no que pode dar errado, no que pode dar certo, em como devo agir se algo sair do esperado, em como falar, onde ficar, quanto tempo pode levar. Tudo isso acontece antes mesmo de eu sair do lugar. Enquanto executo a tarefa, esse processamento continua. O resultado final pode parecer simples, mas o caminho interno até chegar a ele é cansativo, altamente estruturado e exige um gasto cognitivo enorme. O problema é que esse esforço não aparece. E quando não aparece, ele costuma ser desconsiderado. Ser autista adulto muitas vezes é exatamente isso: funcionar por fora, esgotar por dentro.

O rótulo da timidez

Desde criança, me chamavam de tímido. No começo, eu nem sabia exatamente o que essa palavra significava. Ela foi entrando na minha vida aos poucos, como tantas outras coisas que eu aprendi observando, escutando, juntando pedaços. Não me incomodava. Era apenas um nome que davam ao meu jeito de ser. Eu sempre fui mais quieto. Observador. Gostava de ficar no meu canto, pensar, olhar, entender o mundo sem precisar participar dele o tempo todo. Isso nunca foi sofrimento para mim. Era o meu funcionamento natural. Eu acreditava que era assim que eu era, e estava tudo bem. O problema começou quando esse rótulo saiu do campo neutro e entrou no campo moral. Quando passei a participar das reuniões da igreja, ouvi algo que mudou completamente o peso daquela palavra. Pregadores diziam, em tom de certeza absoluta, que pessoas tímidas não tinham parte com Deus. Que a timidez era sinal de falta de fé. Que quem era tímido estava condenado ao inferno. Eu não tinha ferramentas para questionar aquilo. Eu ...

Quando Descobri Quem Eu Era de Verdade

Reflexões de um Autista Adulto que Passou a Vida Mascarando a Si Mesmo Por muito tempo, eu fui um personagem. Mas não um personagem por escolha, e sim por sobrevivência. Passei a infância e adolescência tentando parecer “normal”, tentando me encaixar em um mundo que não parecia feito para mim. Barulhos, falatórios, olhares, expectativas sociais… tudo parecia pesado demais. Eu achava que o problema era comigo. E, na ausência de respostas, o que eu fiz foi imitar o que eu via. Copiar trejeitos, expressões, formas de falar, de agir. Eu aprendi a ser neurotípico sem nunca ter sido. Recentemente, descrevi essa sensação a alguém: é como crescer em uma família brasileira e, aos 40 anos, descobrir que você foi trocado na maternidade e sua família verdadeira era de outra nacionalidade. De repente, tudo faz sentido, mas também tudo desmorona. A língua, os costumes, os códigos sociais… nada era realmente seu. Essa descoberta me atravessou profundamente e, ao mesmo tempo, abriu espaço para um alív...

Cérebro lógico

Meu cérebro como um computador e minha afinidade por ambientes lógicos Desde muito cedo percebi que meu cérebro não funciona como a maioria das pessoas imagina. Eu gosto de dizer que ele funciona como se fosse um computador . Não é metáfora vazia, é a forma mais próxima de explicar a maneira como eu percebo e processo o mundo. Um computador recebe informações, interpreta os comandos e só depois apresenta um resultado. No meu caso, é assim com as emoções das pessoas . Quando alguém demonstra raiva  contra mim, por exemplo, seja por palavras duras ou gestos bruscos, eu não percebo de imediato o que está acontecendo. Primeiro, registro a informação de forma lógica: a pessoa falou alto, a expressão facial mudou, o tom ficou agressivo. Só depois de algum tempo é que meu cérebro conecta tudo isso e entende: “ela está com raiva de mim”. O mesmo acontece com o amor ou carinho : eu entendo melhor quando é repetido em ações consistentes, do que apenas em sinais rápidos, como um sorriso ou um...

Uma Viagem Inesperada

Um olhar autista sobre o filme Miracle Run e o poder do amor materno, da música e da aceitação Assistir ao filme Uma Viagem Inesperada – Missão Especial (Miracle Run) não foi só cumprir uma tarefa da faculdade. Foi como abrir uma janela para o passado e enxergar minha própria vida refletida na tela, mas com outros nomes, outras vozes, outras dores e esperanças que são, no fundo, as mesmas. A história da mãe Corrine e seus filhos gêmeos autistas, Stephen e Phillip, é baseada em fatos reais, e talvez por isso tenha mexido tanto comigo. Corrine é o tipo de mãe que não espera o mundo entender seus filhos para começar a lutar por eles. Ela enfrenta o abandono do marido, o preconceito da sociedade e o desconhecimento sobre o autismo com coragem, amor, força e como tantas outras mães atípicas, ela não desiste. Ela acredita. O filme mostra que o autismo não é algo a ser “curado”, mas compreendido, respeitado e acolhido. É sobre oportunidades, não sobre limitações. Quando sair do carro é ...

Quando o perigo não tem nome

Minhas lembranças autistas da infância Muitas pessoas ainda não entendem que o autismo afeta não só a comunicação ou o comportamento, mas também a forma como percebemos o mundo. Inclusive o perigo. Na infância, eu vivia imerso num universo muito meu, silencioso e intenso. O que era arriscado para os outros, para mim era apenas parte da paisagem. Muitas mães de crianças autistas desenvolvem um instinto de proteção ainda mais forte porque percebem, desde cedo, que seus filhos não reagem ao perigo como os demais. Comigo não foi diferente. Antes mesmo dos cinco anos, vivi situações que hoje poderiam ser chamadas de acidentes graves, mas que, na época, eram apenas “brincadeiras” na minha forma autista de experimentar o mundo. Lembro de uma cena que ficou marcada na memória da minha mãe. Meu pai, que era policial militar, trouxe um cachorro de grande porte, treinado. Um cão respeitado, daqueles que só de olhar já impõem medo. Mas não pra mim. Pra mim, aquele cachorro parecia um cavalo baixin...

Viagens, Ansiedade e Previsibilidade: Um Autista em Trânsito

Brasília, 2018: Voo com Escalas e Desafios Invisíveis Em agosto de 2018, embarquei em uma jornada solo para Brasília. O objetivo? Participar de uma Oficina sobre um Novo Sistema de cadastro virtual, no Campus Universitário Darcy Ribeiro (UnB) em Brasília/DF. Naquele período, eu trabalhava na parte administrativa de um Setor da Saúde em Londrina, onde digitava os dados das UBS no sistema virtual. Com a mudança do sistema, fui designado para receber o treinamento necessário. Mas, na verdade, o que mais aprendi ali não foi sobre tecnologia, mas sobre mim mesmo. Viajar sozinho de avião, com uma escala em Congonhas, já era um desafio e tanto para minha mente autista. Decifrar os telões do aeroporto exigia um esforço colossal. E, para piorar, ouvi do comissário que uma das portas do avião estava com defeito. Isso me deixou paralisado por dentro. Minha salvação veio da minha esposa, Márcia, mesmo à distância. Através do celular, ela me ajudou a escolher o hotel, me deu orientações e até contr...