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Mostrando postagens de julho, 2025

Viagens, Ansiedade e Previsibilidade: Um Autista em Trânsito

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Brasília, 2018: Voo com Escalas e Desafios Invisíveis Em agosto de 2018, embarquei em uma jornada solo para Brasília. O objetivo? Participar de uma Oficina sobre um Novo Sistema de cadastro virtual, no Campus Universitário Darcy Ribeiro (UnB) em Brasília/DF. Naquele período, eu trabalhava na parte administrativa de um Setor da Saúde em Londrina, onde digitava os dados das UBS no sistema virtual. Com a mudança do sistema, fui designado para receber o treinamento necessário. Mas, na verdade, o que mais aprendi ali não foi sobre tecnologia, mas sobre mim mesmo. Viajar sozinho de avião, com uma escala em Congonhas, já era um desafio e tanto para minha mente autista. Decifrar os telões do aeroporto exigia um esforço colossal. E, para piorar, ouvi do comissário que uma das portas do avião estava com defeito. Isso me deixou paralisado por dentro. Minha salvação veio da minha esposa, Márcia, mesmo à distância. Através do celular, ela me ajudou a escolher o hotel, me deu orientações e até contr...

Diagnóstico tardio de autismo: quando o silêncio ganha nome

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Fui diagnosticado com autismo aos 40 anos. Antes disso, ninguém nunca falou em autismo pra mim. Desde criança, me viam como estranho, quieto, tímido demais. E ficou por isso mesmo. Só descobri o diagnóstico porque tive uma crise de ansiedade. Fui parar no consultório da Dra. Michele, psiquiatra. Eu procurava ajuda por causa de uma sobrecarga. Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo: minha esposa perdeu uma gravidez, meu pai teve um princípio de infarto, tive uma queda chegando no trabalho, o trabalho estava sufocando. Não aguentei. Desabei. Fui buscar ajuda. A doutora não me deu um laudo logo de cara. Foram meses de acompanhamento. Um dia, ela me disse que meus comportamentos batiam com o que se conhecia como Síndrome de Asperger . Fiz avaliação. Confirmou: autismo nível 1, sem deficiência intelectual . Foi um choque e, ao mesmo tempo, um alívio. As peças começaram a se encaixar. Tudo aquilo que eu não entendia em mim passou a fazer sentido: o incômodo com barulho, a dificuldade e...

O Gesso e o Grito Invisível: Memória Sensorial de um Braço Quebrado

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Não lembro o momento exato em que quebrei o braço. Talvez porque eu não entendi o que estava acontecendo. Só lembro da dor, estranha, silenciosa, incompreensível. Meu braço não mexia direito. E eu não sabia por quê. Ninguém percebeu. Nem meu pai. Nem minha mãe. Mas isso não me surpreende. Eu já era o menino que não deixava ninguém encostar. Já era o menino do silêncio, dos gestos retraídos, do incômodo oculto. Era mais fácil pensarem que era “mais um comportamento meu”. Mas não era. Era fratura. Foi um amigo da família que notou. Ele viu meu jeito de andar, de proteger o braço. Alertou meus pais. Meu pai me levou ao médico. E o diagnóstico caiu como um susto que explicava o inexplicável: Meu braço estava quebrado. Já estava até colando errado. O médico precisou quebrar de novo, para consertar. E por incrível que pareça, esse momento não me marcou tanto quanto o que veio depois. O gesso. O gesso era uma prisão sensorial. Um peso que não me pertencia. Uma roupa que não saía. As coceiras ...

O Pequeno Príncipe e Eu: uma história autista entre estrelas, silêncio e afeto

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Em dezembro de 2019, minha esposa, a professora Márcia, me pediu ajuda para uma atividade na escola onde leciona. A missão era desenhar o Pequeno Príncipe em tamanho gigante . Eu aceitei. Desenhei com o cuidado de quem, como o próprio personagem, prefere observar em silêncio antes de agir. A professora Ellen foi quem deu continuidade, com uma decoração que, sinceramente, me emocionou. Eu fiz o traço. Elas deram cor, vida e significado. A imagem virou cenário. Um fundo azul escuro com estrelas amarelas , o Pequeno Príncipe com seu cachecol vermelho e um feixe de pássaros brancos que ele segura com cordas também vermelhas. Mas esses pássaros não são comuns: eles têm rostos de crianças, rostos de alunos. Eles não estão apenas voando, estão sendo levados, guiados. O Príncipe, ali, se torna pedagogo. É uma metáfora poderosa da educação com afeto: a criança conduzindo outras crianças num céu simbólico. Ali vi mais do que arte. Vi um espelho. Eu sou um pouco o Pequeno Príncipe Sempre fui um e...

Reflexão em Desenho: Uma Jornada Autista Entre o Pensar, o Agir e o Lutar

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Desde criança, aprendi a observar antes de agir, não por escolha, mas por instinto. No silêncio que sempre habitou em mim, a vida era observada como quem assiste a um jogo sem saber se será convocado. Cresci assim: entre a análise do mundo e a dificuldade de pertencer a ele. Foi nesse intervalo entre o pensar e o fazer que encontrei o desenho como linguagem, e a reflexão como refúgio. 1. Pensar: quando a bola é só silêncio Neste primeiro desenho, o jogador contempla a bola. Não corre. Não chuta. Apenas olha. Para muitos, isso pode parecer hesitação. Para mim, é processamento. É o tempo necessário para entender o que o mundo espera de mim, e o que eu espero dele. Na perspectiva sociológica, somos condicionados a agir rápido, a dar respostas automáticas, a performar eficiência. Mas pessoas autistas funcionam em outro ritmo. Precisamos de tempo para refletir, organizar o que sentimos, entender o campo antes de entrar em jogo. Pensar não é paralisia. É estratégia. “Quando tiver um problema...

The Invitation of Jesus Christ

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Since I was a child, I've been afraid of people. Not because of trauma, not because of hatred. But because I couldn’t understand them. Their noises. Their demands. Their looks. Their games. It was easier to be alone. But solitude hurt. Still, it hurt less than pretending to be someone I wasn’t just to be accepted. Over time, I met some people who didn’t judge me. People who didn’t demand anything in return. People who gave me space to be silent, and still stayed by my side. Among them, one Person stood out. Someone who never left me. Who never raised their voice at me. Who never made fun of my way of being. Who never forced me to socialize when I couldn’t. His name is Jesus Christ. He invited me to follow Him. Not to change who I am, but to discover who I truly am. In Him, I found peace for my anxiety. I found light in my confusion. I found rest in my tiredness. And I found a voice that speaks softly to my soul. Jesus doesn't reject autistic people. He understands our silences....

O Convite de Jesus Cristo

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Desde criança, cresci dentro da igreja. Sou filho de pastor evangélico pentecostal. Conheci a Bíblia antes mesmo de saber dar nome aos meus sentimentos. Vi minha mãe, mulher de oração, e meu pai, pastor de alma simples, mas fé intensa, conduzirem uma igreja com amor e entrega. Fui crescendo entre cultos, louvores, ensaios e orações. Mas, mesmo nesse ambiente de fé, havia algo dentro de mim que me fazia sentir... diferente. Não gostava das rodas de conversa. Me confundia com as brincadeiras. Me assustava com os barulhos altos. Quando alguém me puxava para interagir, eu travava. E quando tentava entrar nas conversas, era como se eu estivesse em outra frequência. Sorria por fora. Mas por dentro, eu me sentia deslocado. Me chamaram de "tímido". E com isso, veio uma interpretação equivocada. Um versículo que muitos usavam como condenação: “Mas, quanto aos tímidos , e aos incrédulos… a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre...” (Apocalipse 21:8) Essa palavra me...

Supermercado, ruído e ansiedade: minha experiência como autista

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Quando uma simples ida ao mercado vira um desafio invisível Ir ao supermercado pode parecer um detalhe trivial no cotidiano da maioria das pessoas. Mas para quem está no espectro autista, como eu, essa experiência pode se transformar num verdadeiro campo minado sensorial. Hoje compartilho uma vivência recente, simples, cotidiana, mas que me desorganizou por dentro e me fez refletir sobre algo que ainda é pouco compreendido: a sobrecarga sensorial. O cenário do caos Fui comprar apenas algumas coisas. Ao entrar naquele lugar, senti que havia entrado num outro mundo: pessoas pra todo lugar, cheiros conflitantes, apitos de empilhadeira, caixas conversando alto, carrinhos colidindo, música ambiente tocando, vozes, passos, tudo misturado. Minha cabeça começou a latejar. Era como se todos os sentidos estivessem gritando ao mesmo tempo. Eu só queria pegar os produtos, mas minha mente já estava em alerta máximo. Tentei fingir que estava tudo bem, afinal, "é só um mercado", diriam os n...

Autistas e o Pensamento Literal: Quando as Palavras Ferem ou Confundem

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Quando eu era criança, uma frase que ouvi na escola me deixou inquieto por dias: “ Hoje vai chover canivete. ” Aquilo me assustou. Fiquei esperando a chuva cair, com medo de me machucar. O mais estranho era que ninguém parecia se importar. Ninguém levou guarda-chuva. Ninguém fugiu do céu. Só eu, parado, tentando entender como as pessoas conseguiam rir de algo tão perigoso. Viver com autismo é isso: as palavras são reais. Não vêm com entrelinhas, nem figuras de linguagem. O pensamento literal não é erro. É o modo como a gente interpreta o mundo, com sinceridade absoluta. Vou explicar melhor esta literalidade, com a história de Benício Pereira, personagem fictício, mas os fatos aconteceram comigo. Capítulo 1 – O Mapa Invisível Benício Pereira tinha 9 anos e um mundo só dele, desses que não cabem na fala comum, mas se revelam nos gestos, nos olhos atentos e no silêncio cheio de sentidos. Vivia desenhando mapas invisíveis com os pés, andando pelas ruas do bairro como um explorador que não ...

Meu Mundo Particular: Como é viver em silêncio sendo autista

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Em silêncio, dentro de mim, vive um mundo que não é menor, apenas mais profundo. Enquanto tento compreender o ritmo frenético da sociedade neurotípica, vou organizando o caos externo com as ferramentas internas que desenvolvi como autista. No meu jeito de ver e sentir a vida, existe uma divisão muito clara, quase simbólica: o lado de dentro (psique) e o lado de fora (ação). Meu mundo particular é a junção desses dois lados. O lado de dentro: psique, pensamentos e intensidade É aqui que tudo começa. Esse é o território dos pensamentos, das reflexões, da percepção apurada. É onde moram a lógica, a introspecção e a sensibilidade. Cada ser humano tem seu funcionamento interno, que é moldado por vários fatores, desde a genética até os acontecimentos da vida. E, nesse funcionamento, também se expressa um temperamento (como explicava Hipócrates, ao propor os perfis melancólico, fleumático, colérico e sanguíneo) que influencia nosso modo de reagir ao mundo. Para quem está no espectro autista, ...