Wilma Anedino de Oliveira (mãe)

A Mãe que Vivia de Fé, Amor e Milagres

No mundo atípico em que cresci, onde os sentimentos parecem mais intensos e a memória não se apaga fácil, algumas pessoas deixam marcas tão profundas que continuam vivas mesmo depois de partirem. Minha mãe é uma dessas presenças eternas. Wilma Anedino de Oliveira, o nome que ainda ecoa aqui dentro com a mesma doçura de quando eu era criança.

Ela nasceu em Campos Novos Paulista, no dia 17 de setembro de 1956, filha de Benedito Anedino de Oliveira e Batista Rogério. Era uma entre cinco irmãos: Odila, Naide, Wilson, Wilma e Vanda, todos criados na simplicidade do campo, entre lavouras de algodão e café, aprendendo desde cedo o valor da terra e da fé.

Minha mãe era dessas meninas que pareciam carregar um mundo dentro do olhar. Cabelos cacheados, olhos grandes e brilhantes, e uma alma sonhadora que, mesmo com pouca instrução, estudou até a antiga quarta série, aprendeu a enxergar longe. Teve que deixar os estudos cedo para ajudar em casa. Trabalhou como babá, doméstica e depois costureira numa fábrica. Sempre com dignidade. Sempre com esperança.

A fé foi seu alicerce desde menina. Criada na igreja evangélica, ela carregava uma confiança em Deus que não se abalava. E essa fé também unia os irmãos. Havia entre eles um laço forte, feito de cumplicidade. Quando perdeu a irmã Naide, ainda criança, foi como se arrancassem uma parte dela. Chorou muito, mas não perdeu a fé. Nunca.

Com 19 anos, já em Assis-SP, casou-se com meu pai, Francisco. Jovem, espirituoso, trabalhador. Trabalhava com instalação de redes elétricas. Logo nasci, o primeiro de cinco filhos. Mas o caminho não foi fácil. Meu pai, em formação na Polícia Militar em Londrina, e minha mãe sozinha comigo, sustentando a vida nos fundos da igreja onde trabalhava como zeladora. Era pouco o que ganhava, mas o coração era grande demais. Quando meu pai enfim recebeu seu primeiro salário, nos levou para Londrina. Recomeçamos do zero. Juntos.

As perdas continuaram a marcar sua vida. Quando estava grávida da minha irmã Vânia, perdeu o pai, Benedito, meu avô. E mais tarde, numa noite de culto, soube, por revelação espiritual, que sua mãe partiria. A dor foi imensa. Lembro dela chorando dias seguidos, em silêncio, abraçada à fé.

Mas minha mãe também foi testemunha de milagres. Quando Vânia nasceu, veio com um problema grave: o esôfago obstruído. Os médicos queriam operar. Era arriscado. Ela chorava sem parar vendo a filha definhando. Mas não permitiu a cirurgia. Orava. Chorava. Jejuava. E o impossível aconteceu. Aos nove meses, Vânia estava curada, sem bisturi, sem hospital. O médico, incrédulo, perguntou: “Quem fez a cirurgia?” Ela respondeu com a convicção que só a fé traz: “Jesus Cristo, o médico dos médicos.”

Minha mãe foi pilar. Esteve ao lado do meu pai em tudo: nas lutas, na fé, na doença. Quando ele foi desenganado pelos médicos, com diagnóstico terminal, ela o alimentava na boca, com caldo. Fez um voto a Deus: se ele sobrevivesse, adotariam uma criança. No mesmo dia, durante o jantar, meu pai se levantou e foi até a mesa. Voltou à vida. E anos depois, cumprindo o voto, adotaram Sandra.

Depois veio outro sonho: ela via, com clareza, um menino negro, nos seus braços. Chamava-se João Paulo Batista. Quando essa criança nasceu e chegou à nossa casa, ela o acolheu sem hesitar. Não via cor. Não via barreiras. Só via amor. Missão.

Minha mãe não tinha diploma, mas sua sabedoria era coisa rara. Fazia contas de cabeça, nos ajudava com as lições da escola, dava conselhos que acertavam em cheio. Trabalhava na igreja, cuidava de crianças, ajudava quem precisava, até quando quase não tínhamos nada, ela tirava do pouco para dar leite a quem estava com fome. Era generosidade em carne e osso.

Uma mulher forte, mas de fala mansa. Quando éramos injustiçados, ela nos defendia como uma leoa. Mas se fosse ela a ofendida, sua resposta era sempre: “Vamos orar.”

Então veio o golpe mais duro. Um câncer de mama, já em estágio avançado. Fez cirurgia, passou por quimioterapia, perdeu os cabelos… mas nunca a fé. Nunca a esperança. Ficou um ano acamada. E mesmo deitada, era ela quem nos dava força. Morreu em novembro de 2003, com a paz de quem sabe que viveu como deveria: com fé, com entrega, com amor.

Até hoje escuto sua voz nos meus pensamentos. Sua risada leve, seu jeito de cantar quando estava feliz, ou triste. Porque, para ela, cantar era louvar. Louvar era viver.

Hoje eu sei. Fui presenteado com uma mãe extraordinária. Daquelas que marcam uma família para sempre. Simples, sim. Mas de uma luz e de uma sabedoria que nem todo mundo consegue ter.

Wilma Anedino de Oliveira foi mais do que mãe. Foi milagre. Foi fé. Foi amor puro. E continua sendo.


FOTOS DE MINHA MÃE:

Wilma em Assis/SP

Wilma recebendo Certificado


Casamento na Igreja

Salão de Festa

Wilma costurando

Wilma e Vilmar

Wilma, Vilmar e Francisco

Wilma: Lutou contra o câncer


CURSOS REALIZADOS:

Ensino Fundamental


Curso de Artes Culinárias


Curso de Corte e Costura


Curso de Corte e Costura

Comentários