Às vezes, as pessoas podem olhar para mim e pensar: “Por que ele demorou para responder?” Ou: “Ele não entendeu?” Nem sempre. Às vezes, eu entendi. Só preciso de um pouco mais de tempo para organizar aquilo que acabou de acontecer. Hoje consigo perceber melhor isso em mim. Quando recebo uma informação nova, principalmente quando envolve uma situação que não conheço, costumo observar primeiro. Observo o ambiente. As pessoas. A maneira como elas conversam. Como reagem. O que parece ser esperado naquele lugar. Depois tento organizar essas informações para descobrir como devo agir. É como se minha cabeça precisasse montar um mapa antes de começar a caminhada. Eu observo antes de entrar em cena Existe outra coisa importante nessa observação. Ela não serve apenas para eu entender o que está acontecendo. Também serve para eu aprender a me comportar socialmente. Minha observação funciona um pouco como o laboratório de um ator antes de interpretar um novo personagem . O ator estuda o personagem...
Quando as pessoas falam sobre interpretação literal no autismo, muitas imaginam apenas dificuldades para entender piadas, ironias ou expressões como "engolir sapo" ou "quebrar um galho". Mas, para mim, a interpretação literal foi muito além disso. Ela quase me colocou em uma situação de grande perigo. Eu era criança quando minha família foi passar um fim de semana em um sítio. Meu pai havia combinado de pescar com alguns amigos em um rio da região. Em algum momento, ele comentou que eu iria pescar com ele. Para mim, aquilo não era apenas uma ideia. Era um combinado. Era algo que iria acontecer. Depois de algum tempo, percebi que meu pai já tinha saído. Na minha cabeça só existia uma explicação: ele tinha se esquecido de me chamar. Eu não fiquei bravo. Não achei que ele tivesse mudado de ideia. Não pensei que ele pudesse ter falado aquilo apenas como uma intenção. Muito menos imaginei que ele pudesse ter saído sem mim porque eu deveria permanecer com minha mãe e meus...