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Postagens

Vivências sobre autismo na vida adulta.

Eu não sou lento. Às vezes, estou processando

Às vezes, as pessoas podem olhar para mim e pensar: “Por que ele demorou para responder?” Ou: “Ele não entendeu?” Nem sempre. Às vezes, eu entendi. Só preciso de um pouco mais de tempo para organizar aquilo que acabou de acontecer. Hoje consigo perceber melhor isso em mim. Quando recebo uma informação nova, principalmente quando envolve uma situação que não conheço, costumo observar primeiro. Observo o ambiente. As pessoas. A maneira como elas conversam. Como reagem. O que parece ser esperado naquele lugar. Depois tento organizar essas informações para descobrir como devo agir. É como se minha cabeça precisasse montar um mapa antes de começar a caminhada. Eu observo antes de entrar em cena Existe outra coisa importante nessa observação. Ela não serve apenas para eu entender o que está acontecendo. Também serve para eu aprender a me comportar socialmente. Minha observação funciona um pouco como o laboratório de um ator antes de interpretar um novo personagem . O ator estuda o personagem...
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Como minha interpretação literal da comunicação quase me colocou em perigo na infância

Quando as pessoas falam sobre interpretação literal no autismo, muitas imaginam apenas dificuldades para entender piadas, ironias ou expressões como "engolir sapo" ou "quebrar um galho". Mas, para mim, a interpretação literal foi muito além disso. Ela quase me colocou em uma situação de grande perigo. Eu era criança quando minha família foi passar um fim de semana em um sítio. Meu pai havia combinado de pescar com alguns amigos em um rio da região. Em algum momento, ele comentou que eu iria pescar com ele. Para mim, aquilo não era apenas uma ideia. Era um combinado. Era algo que iria acontecer. Depois de algum tempo, percebi que meu pai já tinha saído. Na minha cabeça só existia uma explicação: ele tinha se esquecido de me chamar. Eu não fiquei bravo. Não achei que ele tivesse mudado de ideia. Não pensei que ele pudesse ter falado aquilo apenas como uma intenção. Muito menos imaginei que ele pudesse ter saído sem mim porque eu deveria permanecer com minha mãe e meus...

Diagnóstico tardio de autismo em adultos: quando finalmente entendi minha história

Durante grande parte da minha vida, eu não sabia que era autista. Eu apenas acreditava que era diferente. Era o menino quieto, o adolescente tímido, o adulto reservado. Preferia observar a participar. Sentia um enorme cansaço em ambientes barulhentos. Conversar com muitas pessoas ao mesmo tempo exigia um esforço que ninguém parecia perceber. Mudanças de rotina me deixavam desconfortável, e muitas situações sociais pareciam seguir regras invisíveis que eu nunca conseguia compreender completamente. Mesmo assim, segui em frente. Estudei, trabalhei, construí minha família, enfrentei desafios e procurei fazer o meu melhor em cada etapa da vida. Como muitas pessoas que recebem um diagnóstico tardio de autismo, aprendi desde cedo a me adaptar, mesmo sem entender por que algumas tarefas simples para a maioria exigiam tanto esforço de mim. Durante muitos anos, procurei respostas. Será que eu era apenas tímido? Será que precisava me esforçar mais? Será que um dia aprenderia a ser como as outras ...

Mundo Atípico: não sou defeito, sou diferente

Durante grande parte da minha vida, as pessoas viam em mim apenas um homem tímido, quieto, reservado ou "diferente". Poucos percebiam o que realmente acontecia dentro de mim. Desde criança, sempre observei mais do que participei. Enquanto muitos conversavam com facilidade, eu preferia ouvir. Enquanto outros pareciam se adaptar naturalmente aos ambientes, eu sentia cada detalhe: os barulhos, as mudanças, as expressões das pessoas e até aquilo que ninguém parecia notar. Por muitos anos, não encontrei explicação para isso. Eu apenas seguia em frente, acreditando que precisava me esforçar mais para ser como os outros. Mas, por mais que tentasse, sempre existia algo que me fazia sentir diferente. O diagnóstico tardio de autismo trouxe respostas que eu procurei durante décadas. Muitas experiências da minha vida finalmente passaram a fazer sentido. Não era preguiça. Não era falta de vontade. Não era falta de inteligência. Também não era escolha. Era autismo. Era uma forma diferente ...

A tecnologia na minha vida

MAIS DO QUE FACILIDADE, UMA FORMA DE INCLUSÃO Vivemos em um mundo que muda rapidamente. A tecnologia avança todos os dias e, com isso, transforma a forma como trabalhamos, nos comunicamos e vivemos. No meu caso, a tecnologia não é apenas uma ferramenta moderna: ela é essencial para minha qualidade de vida. Como uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), sempre enfrentei dificuldades em ambientes com muito barulho, excesso de estímulos e interações sociais intensas. Essas situações podem gerar ansiedade e desconforto. É nesse ponto que a tecnologia se torna uma grande aliada. Por meio dela, consigo me comunicar com mais tranquilidade. Aplicativos de mensagem, redes sociais e ferramentas digitais me dão tempo para pensar, organizar minhas ideias e me expressar com clareza. Diferente das conversas presenciais, onde tudo acontece muito rápido, o ambiente digital respeita meu tempo. No trabalho, a tecnologia também é indispensável. Atuando na área administrativa e com digitação, u...

Do Operacional ao Estratégico

Minha Caminhada como Técnico de Gestão Pública (TGP): Um Olhar Autista Sobre Crescimento Profissional Quando a gente fala em carreira pública, muita gente imagina estabilidade. Mas, na prática, existe algo muito mais profundo: processo, evolução e consciência do próprio papel dentro do sistema . Hoje eu quero explicar, de forma simples e real, a diferença entre os três níveis do cargo de Técnico de Gestão Pública (TGP): Classe A, Classe B e Classe C. E mais do que isso, quero mostrar como essa evolução aconteceu na minha própria vida. Classe A (TGPA01): O começo (aprender fazendo) Quando entrei na Prefeitura de Londrina, comecei como TGP Classe A . Esse é o nível mais básico. Aqui, o trabalho é essencialmente operacional: Atendimento ao público Organização de documentos Protocolos Digitação Rotinas administrativas simples É o nível onde a gente aprende o funcionamento do sistema por dentro. Sem glamour. Sem autonomia. Mas com muito aprendizado. No meu caso, foi um período importante. M...

Quando o padrão vira necessidade

Eu demorei anos para entender isso. Durante muito tempo, eu pensei que era apenas uma característica minha: “Eu gosto das coisas organizadas.” “Eu prefiro fazer tudo do meu jeito.” Mas não era só isso. Era mais profundo. O cérebro pede previsibilidade No Transtorno do Espectro Autista , a rotina não é apenas preferência. Ela é uma forma de equilíbrio. Quando tudo segue um padrão, a mente descansa. Quando algo sai do esperado… o corpo sente. E nem sempre as pessoas ao redor entendem isso. O padrão aparece nos detalhes Não é algo escancarado. Muitas vezes passa despercebido: até por quem vive isso. Pode ser assim: Fazer as coisas sempre na mesma ordem Usar o mesmo caminho todos os dias Comer as mesmas comidas Repetir pequenos hábitos sem perceber Pensar demais sobre a mesma situação Por fora, parece organização. Por dentro, é necessidade. O problema não é a rotina: é a quebra dela O ponto central não é gostar de padrão. É o que acontece quando ele quebra. Uma mudança simples pode gerar: ...

Não é falta de capacidade, é falta de ajuste

Eu não sou incapaz. E isso precisa ser dito com clareza. Eu não tenho deficiência intelectual. Tenho formação superior, especializações e uma mente que funciona: e funciona bem. Eu penso, analiso, aprendo, produzo. Sempre fui capaz. Mas durante muito tempo, me fizeram acreditar que o problema estava em mim. Hoje eu entendo: o problema nunca foi minha capacidade. O problema foi o ambiente. Minhas dificuldades existem: e eu não nego isso. Mas elas não são cognitivas. Elas são sociais. São sensoriais. São comunicacionais. São os barulhos que invadem minha mente como se não tivessem filtro. São as interações cheias de códigos ocultos que ninguém explica, mas todos esperam que eu entenda. São ambientes que exigem adaptação constante, como se eu tivesse que me moldar o tempo todo para caber. E isso cansa. Isso desgasta. Isso adoece. Quando o ambiente me respeita, algo muda completamente. Eu consigo me concentrar. Consigo participar. Consigo ser quem eu sou: sem esforço extremo. Mas quando nã...

Quando adoecer tira minha autonomia

Em momentos de crise, doença ou estresse intenso, minha autonomia não desaparece: ela diminui. E diminui muito. Fico confuso. Desorientado. Tenho dificuldade de compreender orientações simples, de processar informações, de responder com clareza. É como se minha mente ficasse sobrecarregada, lenta, distante de mim mesmo. No ambiente hospitalar, isso se intensifica. Nesses momentos, minha esposa deixa de ser apenas companheira: ela se torna meu elo com o mundo. É através dela que consigo entender o que está acontecendo e também me fazer entendido. Ela traduz o ambiente para mim, organiza o caos, me devolve um pouco de segurança. Sem esse apoio, o sofrimento não é apenas físico. Ele se torna emocional, mental, profundo. Por isso, no meu caso, autonomia não é algo fixo. Autonomia é algo que varia conforme o contexto. E reconhecer isso não me diminui. Pelo contrário: me humaniza. Quando adoecer tira minha autonomia

O que é a Síndrome de Asperger? O que esse termo significa para mim

Entenda o que era a Síndrome de Asperger, por que esse termo passou a integrar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o que essa descoberta significou na minha vida como adulto autista diagnosticado tardiamente. Durante muitos anos, eu não sabia por que me sentia diferente das outras pessoas. Eu apenas seguia a vida tentando compreender por que algumas situações, aparentemente simples para a maioria, exigiam tanto esforço de mim. Ambientes barulhentos me cansavam. Interações sociais eram desgastantes. Mudanças inesperadas de rotina geravam ansiedade. Muitas vezes eu não compreendia mensagens indiretas, ironias ou regras sociais que pareciam naturais para os outros. Essas características sempre fizeram parte da minha vida. A diferença é que, durante muito tempo, elas não tinham um nome. Quando recebi meu diagnóstico na vida adulta, conheci um termo que muitas pessoas ainda utilizam: Síndrome de Asperger . Na época, essa expressão era usada para descrever pessoas autistas que não apres...

Masking: quando fingir cansa mais do que trabalhar

Durante muito tempo, tentei parecer normal. Sorri, forcei interação, permaneci em ambientes que me adoeciam. No atendimento ao público, eu conseguia lidar com demandas práticas, mas o custo mental era altíssimo. Até que o corpo e a mente não sustentaram mais. Masking funciona por um tempo. Depois, cobra a conta.

Hiperfocos: onde minha mente descansa

A música sempre foi um lugar seguro para mim. Sou saxofonista e violonista. Na música, a comunicação flui sem exigir leitura social, ironias ou jogos de poder. Também gosto de desenhar, escrever e lidar com tecnologia. Nessas áreas, minha mente encontra ordem, lógica e previsibilidade. O hiperfoco não é fuga do mundo. É um jeito de permanecer nele sem adoecer.