Quando o perigo não tem nome
Minhas lembranças autistas da infância Muitas pessoas ainda não entendem que o autismo afeta não só a comunicação ou o comportamento, mas também a forma como percebemos o mundo. Inclusive o perigo. Na infância, eu vivia imerso num universo muito meu, silencioso e intenso. O que era arriscado para os outros, para mim era apenas parte da paisagem. Muitas mães de crianças autistas desenvolvem um instinto de proteção ainda mais forte porque percebem, desde cedo, que seus filhos não reagem ao perigo como os demais. Comigo não foi diferente. Antes mesmo dos cinco anos, vivi situações que hoje poderiam ser chamadas de acidentes graves, mas que, na época, eram apenas “brincadeiras” na minha forma autista de experimentar o mundo. Lembro de uma cena que ficou marcada na memória da minha mãe. Meu pai, que era policial militar, trouxe um cachorro de grande porte, treinado. Um cão respeitado, daqueles que só de olhar já impõem medo. Mas não pra mim. Pra mim, aquele cachorro parecia um cavalo baixin...