Quando Descobri Quem Eu Era de Verdade

Reflexões de um Autista Adulto que Passou a Vida Mascarando a Si Mesmo

Por muito tempo, eu fui um personagem.

Mas não um personagem por escolha, e sim por sobrevivência.

Passei a infância e adolescência tentando parecer “normal”, tentando me encaixar em um mundo que não parecia feito para mim. Barulhos, falatórios, olhares, expectativas sociais… tudo parecia pesado demais. Eu achava que o problema era comigo. E, na ausência de respostas, o que eu fiz foi imitar o que eu via. Copiar trejeitos, expressões, formas de falar, de agir.

Eu aprendi a ser neurotípico sem nunca ter sido.

Recentemente, descrevi essa sensação a alguém: é como crescer em uma família brasileira e, aos 40 anos, descobrir que você foi trocado na maternidade e sua família verdadeira era de outra nacionalidade.

De repente, tudo faz sentido, mas também tudo desmorona.

A língua, os costumes, os códigos sociais… nada era realmente seu.

Essa descoberta me atravessou profundamente e, ao mesmo tempo, abriu espaço para um alívio que eu nunca senti antes.

Meu diagnóstico tardio e o reencontro com quem eu sou

Receber o diagnóstico de autismo adulto (TEA, Síndrome de Asperger) foi como receber o mapa do país do qual eu sou nativo.

O idioma que eu sempre falei sem saber que falava.

Os sintomas, as dificuldades sensoriais, a forma intensa e sincera de pensar, a ansiedade social, o silêncio, as hiperfocalizações, o cansaço depois de interagir, a exaustão depois de tentar caber em moldes que nunca foram meus… tudo se alinhou.

E a pergunta que ficou ecoando dentro de mim foi:

Como teria sido minha vida se eu soubesse disso antes?

Mas hoje, aos poucos, estou aprendendo a transformar essa pergunta em outra:

 O que eu posso fazer, agora que sei?

“Tirar a máscara”: um processo lento, bonito e assustador

Eu estou aprendendo diariamente a ser um autista sem máscara.

 Isso significa:

  • respeitar meus limites, sem culpa
  • admitir quando um ambiente é barulhento demais
  • reconhecer quando eu preciso de silêncio
  • permitir-me ser literal, sincero e direto
  • não exigir de mim habilidades sociais que me machucam
  • criar rotinas que me acalmem
  • acolher meus interesses profundos sem vergonha
  • e, principalmente, aceitar que eu não sou “difícil”: eu sou autista.

E isso é parte de quem eu sou.

Ser autista não é um problema a ser corrigido.

 É uma identidade.

 É um jeito de pensar e existir.

Eu estou aprendendo a olhar para essa identidade com carinho, e não mais com culpa.

Minha vida hoje e o reencontro comigo mesmo

Esse blog existe justamente para registrar e compartilhar minha caminhada de reconstrução, para que outras pessoas autistas adultas que descobriram tardiamente possam se reconhecer, respirar fundo e perceber:

não estamos sozinhos.

Conclusão: nascer de novo sem máscaras

Hoje, minha maior meta não é ser perfeito.

É ser verdadeiro.

Eu não quero mais viver como convidado em uma festa onde ninguém fala meu idioma.

Quero viver no meu país interno.

Quero me conhecer profundamente.

Quero continuar aprendendo como ser eu mesmo, sem a obrigação de representar um papel que nunca foi meu.

E se você que está lendo isso também viveu mascarado por anos…

saiba que existe um mundo possível onde ser você é suficiente.

E esse mundo

tem espaço para nós.

Eu estou aprendendo a viver nele agora.

Imagem: Gemini





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