Autistas e o Pensamento Literal: Quando as Palavras Ferem ou Confundem
Quando eu era criança, uma frase que ouvi na escola me deixou inquieto por dias: “ Hoje vai chover canivete. ” Aquilo me assustou. Fiquei esperando a chuva cair, com medo de me machucar. O mais estranho era que ninguém parecia se importar. Ninguém levou guarda-chuva. Ninguém fugiu do céu. Só eu, parado, tentando entender como as pessoas conseguiam rir de algo tão perigoso. Viver com autismo é isso: as palavras são reais. Não vêm com entrelinhas, nem figuras de linguagem. O pensamento literal não é erro. É o modo como a gente interpreta o mundo, com sinceridade absoluta. Vou explicar melhor esta literalidade, com a história de Benício Pereira, personagem fictício, mas os fatos aconteceram comigo. Capítulo 1 – O Mapa Invisível Benício Pereira tinha 9 anos e um mundo só dele, desses que não cabem na fala comum, mas se revelam nos gestos, nos olhos atentos e no silêncio cheio de sentidos. Vivia desenhando mapas invisíveis com os pés, andando pelas ruas do bairro como um explorador que não ...