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Mostrando postagens com o rótulo autismo

Mundo Atípico: não sou defeito, sou diferente

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Durante grande parte da minha vida, as pessoas viam em mim apenas um homem tímido, quieto, reservado ou "diferente". Poucos percebiam o que realmente acontecia dentro de mim. Desde criança, sempre observei mais do que participei. Enquanto muitos conversavam com facilidade, eu preferia ouvir. Enquanto outros pareciam se adaptar naturalmente aos ambientes, eu sentia cada detalhe: os barulhos, as mudanças, as expressões das pessoas e até aquilo que ninguém parecia notar. Por muitos anos, não encontrei explicação para isso. Eu apenas seguia em frente, acreditando que precisava me esforçar mais para ser como os outros. Mas, por mais que tentasse, sempre existia algo que me fazia sentir diferente. O diagnóstico tardio de autismo trouxe respostas que eu procurei durante décadas. Muitas experiências da minha vida finalmente passaram a fazer sentido. Não era preguiça. Não era falta de vontade. Não era falta de inteligência. Também não era escolha. Era autismo. Era uma forma diferente ...

O Gesso e o Grito Invisível: Memória Sensorial de um Braço Quebrado

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Não lembro o momento exato em que quebrei o braço. Talvez porque eu não entendi o que estava acontecendo. Só lembro da dor, estranha, silenciosa, incompreensível. Meu braço não mexia direito. E eu não sabia por quê. Ninguém percebeu. Nem meu pai. Nem minha mãe. Mas isso não me surpreende. Eu já era o menino que não deixava ninguém encostar. Já era o menino do silêncio, dos gestos retraídos, do incômodo oculto. Era mais fácil pensarem que era “mais um comportamento meu”. Mas não era. Era fratura. Foi um amigo da família que notou. Ele viu meu jeito de andar, de proteger o braço. Alertou meus pais. Meu pai me levou ao médico. E o diagnóstico caiu como um susto que explicava o inexplicável: Meu braço estava quebrado. Já estava até colando errado. O médico precisou quebrar de novo, para consertar. E por incrível que pareça, esse momento não me marcou tanto quanto o que veio depois. O gesso. O gesso era uma prisão sensorial. Um peso que não me pertencia. Uma roupa que não saía. As coceiras ...

Reflexão em Desenho: Uma Jornada Autista Entre o Pensar, o Agir e o Lutar

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Desde criança, aprendi a observar antes de agir, não por escolha, mas por instinto. No silêncio que sempre habitou em mim, a vida era observada como quem assiste a um jogo sem saber se será convocado. Cresci assim: entre a análise do mundo e a dificuldade de pertencer a ele. Foi nesse intervalo entre o pensar e o fazer que encontrei o desenho como linguagem, e a reflexão como refúgio. 1. Pensar: quando a bola é só silêncio Neste primeiro desenho, o jogador contempla a bola. Não corre. Não chuta. Apenas olha. Para muitos, isso pode parecer hesitação. Para mim, é processamento. É o tempo necessário para entender o que o mundo espera de mim, e o que eu espero dele. Na perspectiva sociológica, somos condicionados a agir rápido, a dar respostas automáticas, a performar eficiência. Mas pessoas autistas funcionam em outro ritmo. Precisamos de tempo para refletir, organizar o que sentimos, entender o campo antes de entrar em jogo. Pensar não é paralisia. É estratégia. “Quando tiver um problema...

Autistas e o Pensamento Literal: Quando as Palavras Ferem ou Confundem

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Quando eu era criança, uma frase que ouvi na escola me deixou inquieto por dias: “ Hoje vai chover canivete. ” Aquilo me assustou. Fiquei esperando a chuva cair, com medo de me machucar. O mais estranho era que ninguém parecia se importar. Ninguém levou guarda-chuva. Ninguém fugiu do céu. Só eu, parado, tentando entender como as pessoas conseguiam rir de algo tão perigoso. Viver com autismo é isso: as palavras são reais. Não vêm com entrelinhas, nem figuras de linguagem. O pensamento literal não é erro. É o modo como a gente interpreta o mundo, com sinceridade absoluta. Vou explicar melhor esta literalidade, com a história de Benício Pereira, personagem fictício, mas os fatos aconteceram comigo. Capítulo 1 – O Mapa Invisível Benício Pereira tinha 9 anos e um mundo só dele, desses que não cabem na fala comum, mas se revelam nos gestos, nos olhos atentos e no silêncio cheio de sentidos. Vivia desenhando mapas invisíveis com os pés, andando pelas ruas do bairro como um explorador que não ...