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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Contato visual

Contato visual não é atenção, é sobrecarga Desde criança, olhar nos olhos das pessoas me causa desconforto. Não é desinteresse, não é falta de educação e não é arrogância. É sobrecarga. Quando alguém exige contato visual, meu cérebro precisa dividir energia entre ouvir, compreender, formular resposta e sustentar o olhar. Isso reduz drasticamente minha capacidade de entender o que está sendo dito. Por isso, muitas vezes olho para outro ponto, para a mesa, para o chão ou para o vazio. É assim que consigo escutar melhor. É assim que consigo processar. Autistas não precisam ser treinados para olhar nos olhos. O mundo é que precisa aprender que atenção não se mede pelo olhar.

Feliz Natal

Jesus veio para todos (inclusive para quem se sente quebrado) Jesus não veio apenas para os que se acham fortes. Ele não veio só para os inteligentes, os bem-sucedidos, os que falam bonito, os que se encaixam, os que parecem espiritualmente corretos. Jesus veio para todos. Veio para quem carrega falhas. Para quem convive com limites. Para quem tem um “ espinho na carne ” que não escolheu, mas aprendeu a suportar. Para quem se sente inadequado em um mundo que exige perfeição o tempo todo. O amor de Cristo nunca foi um prêmio para os perfeitos. Sempre foi remédio para os feridos. Quando Jesus se aproxima, Ele não pergunta se a pessoa é funcional, produtiva, forte ou admirável aos olhos da sociedade. Ele olha o coração cansado, a alma sobrecarregada, a história marcada por rejeições silenciosas. E é nesse encontro que algo muda. Não porque a imperfeição desaparece, mas porque ela deixa de ser um motivo de vergonha. Em Cristo, a falha não define o fim da história. O limite não é sentença...

Eu pareço funcional, mas não é tão simples

Muitas pessoas olham para mim e veem alguém funcional. Eu recebo uma tarefa, executo e entrego. Vou ao mercado, resolvo questões do trabalho, cumpro rotinas. Para quem observa de fora, parece simples. Para mim, não é. Antes de qualquer tarefa, minha mente cria vários quadros ao mesmo tempo. Penso no que pode dar errado, no que pode dar certo, em como devo agir se algo sair do esperado, em como falar, onde ficar, quanto tempo pode levar. Tudo isso acontece antes mesmo de eu sair do lugar. Enquanto executo a tarefa, esse processamento continua. O resultado final pode parecer simples, mas o caminho interno até chegar a ele é cansativo, altamente estruturado e exige um gasto cognitivo enorme. O problema é que esse esforço não aparece. E quando não aparece, ele costuma ser desconsiderado. Ser autista adulto muitas vezes é exatamente isso: funcionar por fora, esgotar por dentro.

O rótulo da timidez

Desde criança, me chamavam de tímido. No começo, eu nem sabia exatamente o que essa palavra significava. Ela foi entrando na minha vida aos poucos, como tantas outras coisas que eu aprendi observando, escutando, juntando pedaços. Não me incomodava. Era apenas um nome que davam ao meu jeito de ser. Eu sempre fui mais quieto. Observador. Gostava de ficar no meu canto, pensar, olhar, entender o mundo sem precisar participar dele o tempo todo. Isso nunca foi sofrimento para mim. Era o meu funcionamento natural. Eu acreditava que era assim que eu era, e estava tudo bem. O problema começou quando esse rótulo saiu do campo neutro e entrou no campo moral. Quando passei a participar das reuniões da igreja, ouvi algo que mudou completamente o peso daquela palavra. Pregadores diziam, em tom de certeza absoluta, que pessoas tímidas não tinham parte com Deus. Que a timidez era sinal de falta de fé. Que quem era tímido estava condenado ao inferno. Eu não tinha ferramentas para questionar aquilo. Eu ...

Quando Descobri Quem Eu Era de Verdade

Reflexões de um Autista Adulto que Passou a Vida Mascarando a Si Mesmo Por muito tempo, eu fui um personagem. Mas não um personagem por escolha, e sim por sobrevivência. Passei a infância e adolescência tentando parecer “normal”, tentando me encaixar em um mundo que não parecia feito para mim. Barulhos, falatórios, olhares, expectativas sociais… tudo parecia pesado demais. Eu achava que o problema era comigo. E, na ausência de respostas, o que eu fiz foi imitar o que eu via. Copiar trejeitos, expressões, formas de falar, de agir. Eu aprendi a ser neurotípico sem nunca ter sido. Recentemente, descrevi essa sensação a alguém: é como crescer em uma família brasileira e, aos 40 anos, descobrir que você foi trocado na maternidade e sua família verdadeira era de outra nacionalidade. De repente, tudo faz sentido, mas também tudo desmorona. A língua, os costumes, os códigos sociais… nada era realmente seu. Essa descoberta me atravessou profundamente e, ao mesmo tempo, abriu espaço para um alív...