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Como minha interpretação literal da comunicação quase me colocou em perigo na infância

Quando as pessoas falam sobre interpretação literal no autismo, muitas imaginam apenas dificuldades para entender piadas, ironias ou expressões como "engolir sapo" ou "quebrar um galho".

Mas, para mim, a interpretação literal foi muito além disso.

Ela quase me colocou em uma situação de grande perigo.

Eu era criança quando minha família foi passar um fim de semana em um sítio. Meu pai havia combinado de pescar com alguns amigos em um rio da região. Em algum momento, ele comentou que eu iria pescar com ele.

Para mim, aquilo não era apenas uma ideia.

Era um combinado.

Era algo que iria acontecer.

Depois de algum tempo, percebi que meu pai já tinha saído.

Na minha cabeça só existia uma explicação: ele tinha se esquecido de me chamar.

Eu não fiquei bravo.

Não achei que ele tivesse mudado de ideia.

Não pensei que ele pudesse ter falado aquilo apenas como uma intenção.

Muito menos imaginei que ele pudesse ter saído sem mim porque eu deveria permanecer com minha mãe e meus irmãos.

Minha conclusão foi simples:

"Meu pai esqueceu de mim."

E, se ele tinha esquecido, havia um problema para resolver.

Sem falar nada para ninguém, saí andando para procurá-lo.

Naquele momento, eu não estava fugindo de casa.

Eu não queria passear.

Eu não estava fazendo travessura.

Na minha cabeça, eu apenas estava resolvendo um esquecimento do meu pai.

Caminhei por vários quilômetros.

Em determinado momento encontrei dois caminhos. Parei, observei o terreno e fiz um raciocínio que, para mim, parecia completamente lógico.

Se o rio ficava na parte mais baixa, então eu deveria seguir pelo caminho da direita.

E foi exatamente isso que fiz.

Cheguei a outro sítio e perguntei se meu pai havia passado por ali. Disseram que sim e permitiram que eu continuasse procurando.

Atravessei o pasto sozinho.

Ao longe, vi uma mata.

Pensei que o rio provavelmente estaria depois dela.

Continuei caminhando.

O tempo passou e, de repente, escureceu.

Muito rápido.

Olhei ao redor e já não conseguia enxergar quase nada.

Mesmo assim, eu não entrei em desespero.

Parei apenas para pensar qual seria o melhor caminho para continuar andando.

Hoje percebo uma coisa curiosa.

Naquele momento, eu não estava preocupado em me perder.

Eu não estava preocupado com cobras.

Não pensei em animais, buracos, pessoas desconhecidas ou qualquer outro perigo.

Também não pensei na minha mãe.

Nem nos meus irmãos.

Nem imaginei que todos estariam desesperados me procurando.

Minha atenção estava totalmente presa a um único objetivo.

Encontrar meu pai.

Era como se todo o resto tivesse desaparecido.

Enquanto eu tentava decidir por onde continuar, ouvi pessoas gritando meu nome.

Depois apareceram algumas lanternas.

Segui em direção à luz.

Eram meus familiares e outras pessoas que estavam me procurando.

Voltei para o sítio como se nada de muito importante tivesse acontecido.

Na verdade, durante muitos anos eu nem enxerguei aquele episódio como uma situação de risco.

Era apenas uma lembrança da infância.

Somente depois de adulto, já com o diagnóstico de autismo, comecei a compreender aquela história de outra forma.

Percebi que minha interpretação da conversa havia sido totalmente literal.

Meu pai disse que eu iria pescar com ele.

Eu entendi exatamente isso.

Quando ele saiu sem mim, concluí que havia esquecido de me chamar.

Nunca passou pela minha cabeça que ele pudesse simplesmente ter mudado os planos ou que aquela conversa não fosse um compromisso definitivo.

Minha missão era resolver aquele problema.

E foi isso que tentei fazer.

Hoje vejo que minha lógica fazia sentido.

Mas fazia sentido apenas dentro da forma como meu cérebro havia organizado aquela situação.

Foi somente muitos anos depois que percebi o quanto estive em perigo.

Eu poderia ter entrado na mata.

Poderia não encontrar o caminho de volta.

Poderia ter encontrado um rio, um animal ou qualquer outra situação que uma criança não conseguiria enfrentar sozinha.

Naquele dia, eu não fui salvo porque percebi o risco.

Fui salvo porque alguém percebeu minha ausência e saiu para me procurar.

Hoje essa lembrança me faz refletir sobre algo importante.

Muitas vezes, o comportamento de uma criança autista não nasce da desobediência.

Também não nasce da falta de carinho pela família.

Às vezes, ela apenas está seguindo uma lógica que faz perfeito sentido para ela.

E, justamente por isso, não consegue perceber tudo aquilo que ficou fora do seu foco.

Foi exatamente assim que eu vivi aquela história.

Eu só queria encontrar meu pai.

E, por muitos anos, nunca percebi o tamanho do perigo que existia entre o lugar onde eu estava e o lugar onde imaginava que ele estivesse.

Hoje percebo que essa lembrança diz muito sobre a forma como meu cérebro funcionava. Eu não saí para desafiar meus pais, nem porque gostava de correr riscos. Eu apenas estava tentando resolver um problema que, para mim, era real. Durante muitos anos achei que essa fosse apenas uma história curiosa da infância. Hoje entendo que ela revela muito sobre a maneira como uma criança autista pode interpretar o mundo. Talvez, ao ler este relato, algum pai, alguma mãe ou até mesmo um adulto autista reconheça algo parecido em sua própria história.

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