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Mundo Atípico: não sou defeito, sou diferente

Durante grande parte da minha vida, as pessoas viam em mim apenas um homem tímido, quieto, reservado ou "diferente". Poucos percebiam o que realmente acontecia dentro de mim. Desde criança, sempre observei mais do que participei. Enquanto muitos conversavam com facilidade, eu preferia ouvir. Enquanto outros pareciam se adaptar naturalmente aos ambientes, eu sentia cada detalhe: os barulhos, as mudanças, as expressões das pessoas e até aquilo que ninguém parecia notar. Por muitos anos, não encontrei explicação para isso. Eu apenas seguia em frente, acreditando que precisava me esforçar mais para ser como os outros. Mas, por mais que tentasse, sempre existia algo que me fazia sentir diferente. O diagnóstico tardio de autismo trouxe respostas que eu procurei durante décadas. Muitas experiências da minha vida finalmente passaram a fazer sentido. Não era preguiça. Não era falta de vontade. Não era falta de inteligência. Também não era escolha. Era autismo. Era uma forma diferente ...

A tecnologia na minha vida

MAIS DO QUE FACILIDADE, UMA FORMA DE INCLUSÃO Vivemos em um mundo que muda rapidamente. A tecnologia avança todos os dias e, com isso, transforma a forma como trabalhamos, nos comunicamos e vivemos. No meu caso, a tecnologia não é apenas uma ferramenta moderna: ela é essencial para minha qualidade de vida. Como uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), sempre enfrentei dificuldades em ambientes com muito barulho, excesso de estímulos e interações sociais intensas. Essas situações podem gerar ansiedade e desconforto. É nesse ponto que a tecnologia se torna uma grande aliada. Por meio dela, consigo me comunicar com mais tranquilidade. Aplicativos de mensagem, redes sociais e ferramentas digitais me dão tempo para pensar, organizar minhas ideias e me expressar com clareza. Diferente das conversas presenciais, onde tudo acontece muito rápido, o ambiente digital respeita meu tempo. No trabalho, a tecnologia também é indispensável. Atuando na área administrativa e com digitação, u...

Do Operacional ao Estratégico

Minha Caminhada como Técnico de Gestão Pública (TGP): Um Olhar Autista Sobre Crescimento Profissional Quando a gente fala em carreira pública, muita gente imagina estabilidade. Mas, na prática, existe algo muito mais profundo: processo, evolução e consciência do próprio papel dentro do sistema . Hoje eu quero explicar, de forma simples e real, a diferença entre os três níveis do cargo de Técnico de Gestão Pública (TGP): Classe A, Classe B e Classe C. E mais do que isso, quero mostrar como essa evolução aconteceu na minha própria vida. Classe A (TGPA01): O começo (aprender fazendo) Quando entrei na Prefeitura de Londrina, comecei como TGP Classe A . Esse é o nível mais básico. Aqui, o trabalho é essencialmente operacional: Atendimento ao público Organização de documentos Protocolos Digitação Rotinas administrativas simples É o nível onde a gente aprende o funcionamento do sistema por dentro. Sem glamour. Sem autonomia. Mas com muito aprendizado. No meu caso, foi um período importante. M...

Quando o padrão vira necessidade

Eu demorei anos para entender isso. Durante muito tempo, eu pensei que era apenas uma característica minha: “Eu gosto das coisas organizadas.” “Eu prefiro fazer tudo do meu jeito.” Mas não era só isso. Era mais profundo. O cérebro pede previsibilidade No Transtorno do Espectro Autista , a rotina não é apenas preferência. Ela é uma forma de equilíbrio. Quando tudo segue um padrão, a mente descansa. Quando algo sai do esperado… o corpo sente. E nem sempre as pessoas ao redor entendem isso. O padrão aparece nos detalhes Não é algo escancarado. Muitas vezes passa despercebido: até por quem vive isso. Pode ser assim: Fazer as coisas sempre na mesma ordem Usar o mesmo caminho todos os dias Comer as mesmas comidas Repetir pequenos hábitos sem perceber Pensar demais sobre a mesma situação Por fora, parece organização. Por dentro, é necessidade. O problema não é a rotina: é a quebra dela O ponto central não é gostar de padrão. É o que acontece quando ele quebra. Uma mudança simples pode gerar: ...

Não é falta de capacidade, é falta de ajuste

Eu não sou incapaz. E isso precisa ser dito com clareza. Eu não tenho deficiência intelectual. Tenho formação superior, especializações e uma mente que funciona: e funciona bem. Eu penso, analiso, aprendo, produzo. Sempre fui capaz. Mas durante muito tempo, me fizeram acreditar que o problema estava em mim. Hoje eu entendo: o problema nunca foi minha capacidade. O problema foi o ambiente. Minhas dificuldades existem: e eu não nego isso. Mas elas não são cognitivas. Elas são sociais. São sensoriais. São comunicacionais. São os barulhos que invadem minha mente como se não tivessem filtro. São as interações cheias de códigos ocultos que ninguém explica, mas todos esperam que eu entenda. São ambientes que exigem adaptação constante, como se eu tivesse que me moldar o tempo todo para caber. E isso cansa. Isso desgasta. Isso adoece. Quando o ambiente me respeita, algo muda completamente. Eu consigo me concentrar. Consigo participar. Consigo ser quem eu sou: sem esforço extremo. Mas quando nã...

Quando adoecer tira minha autonomia

Em momentos de crise, doença ou estresse intenso, minha autonomia não desaparece: ela diminui. E diminui muito. Fico confuso. Desorientado. Tenho dificuldade de compreender orientações simples, de processar informações, de responder com clareza. É como se minha mente ficasse sobrecarregada, lenta, distante de mim mesmo. No ambiente hospitalar, isso se intensifica. Nesses momentos, minha esposa deixa de ser apenas companheira: ela se torna meu elo com o mundo. É através dela que consigo entender o que está acontecendo e também me fazer entendido. Ela traduz o ambiente para mim, organiza o caos, me devolve um pouco de segurança. Sem esse apoio, o sofrimento não é apenas físico. Ele se torna emocional, mental, profundo. Por isso, no meu caso, autonomia não é algo fixo. Autonomia é algo que varia conforme o contexto. E reconhecer isso não me diminui. Pelo contrário: me humaniza. Quando adoecer tira minha autonomia

O que é a Síndrome de Asperger? O que esse termo significa para mim

Entenda o que era a Síndrome de Asperger, por que esse termo passou a integrar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o que essa descoberta significou na minha vida como adulto autista diagnosticado tardiamente. Durante muitos anos, eu não sabia por que me sentia diferente das outras pessoas. Eu apenas seguia a vida tentando compreender por que algumas situações, aparentemente simples para a maioria, exigiam tanto esforço de mim. Ambientes barulhentos me cansavam. Interações sociais eram desgastantes. Mudanças inesperadas de rotina geravam ansiedade. Muitas vezes eu não compreendia mensagens indiretas, ironias ou regras sociais que pareciam naturais para os outros. Essas características sempre fizeram parte da minha vida. A diferença é que, durante muito tempo, elas não tinham um nome. Quando recebi meu diagnóstico na vida adulta, conheci um termo que muitas pessoas ainda utilizam: Síndrome de Asperger . Na época, essa expressão era usada para descrever pessoas autistas que não apres...

Masking: quando fingir cansa mais do que trabalhar

Durante muito tempo, tentei parecer normal. Sorri, forcei interação, permaneci em ambientes que me adoeciam. No atendimento ao público, eu conseguia lidar com demandas práticas, mas o custo mental era altíssimo. Até que o corpo e a mente não sustentaram mais. Masking funciona por um tempo. Depois, cobra a conta.

Hiperfocos: onde minha mente descansa

A música sempre foi um lugar seguro para mim. Sou saxofonista e violonista. Na música, a comunicação flui sem exigir leitura social, ironias ou jogos de poder. Também gosto de desenhar, escrever e lidar com tecnologia. Nessas áreas, minha mente encontra ordem, lógica e previsibilidade. O hiperfoco não é fuga do mundo. É um jeito de permanecer nele sem adoecer.

Quando a rotina me mantém de pé

Mudanças inesperadas me desorganizam profundamente. Preciso de rotina, previsibilidade e estrutura. Viajar, por exemplo, só é possível quando tudo é planejado com antecedência: datas, horários, trajetos, local, rotina e até possíveis imprevistos. Sem isso, a ansiedade toma conta antes mesmo da viagem começar. Por isso, minha esposa organiza nossas viagens meses antes. Ela planeja cada detalhe com calma, antecipa informações, constrói o caminho antes de a viagem existir de fato. Esse cuidado não é excesso de controle: é acolhimento. Quando sei o que vai acontecer, meu corpo se acalma. Minha mente encontra chão. E a viagem deixa de ser ameaça para se tornar possibilidade. Rotina não é rigidez. É sustentação. E, às vezes, também é amor em forma de planejamento.

O barulho cansa mais do que o trabalho

Ambientes barulhentos me adoecem. Conversas paralelas, falas altas, ruídos constantes não são apenas incômodos: são agressivos. No trabalho, muitas vezes o cansaço não vem da tarefa, mas do ambiente. O barulho consome energia, desorganiza o pensamento e aumenta a ansiedade. No fim do dia, não estou cansado porque trabalhei demais. Estou exausto porque precisei filtrar estímulos o tempo todo. Autismo também é isso: lutar para pensar em ambientes que não silenciam.

Quando tudo é dito nas entrelinhas

Tenho muita dificuldade em entender mensagens implícitas, ironias, metáforas e falas indiretas. Quando algo não é dito de forma clara, objetiva e direta, eu simplesmente não entendo por completo. Se um texto usa códigos, significados escondidos ou espera que eu “deduza” algo que não está explícito, eu travo. Nessas situações, muitas vezes preciso que outra pessoa me explique: “o que exatamente esse texto quer dizer?” Isso acontece muito em pregações religiosas. O pregador faz a exposição do tema, mas quando entra nos exemplos “nas entrelinhas”, nas metáforas ou nas mensagens indiretas, eu me perco. As pessoas ao redor parecem compreender naturalmente. Eu não. Na faculdade, isso foi ainda mais difícil. Os textos de sociologia são, em grande parte, escritos nas entrelinhas. O autor não diz tudo de forma direta. O professor faz perguntas esperando respostas que não estão literalmente no texto. Os colegas entendem rápido. Eu não. Eu estudava, lia, relia, tentava entender… mas não era fácil...