Eu não sou lento. Às vezes, estou processando
Às vezes, as pessoas podem olhar para mim e pensar:
“Por que ele demorou para responder?”
Ou:
“Ele não entendeu?”
Nem sempre.
Às vezes, eu entendi.
Só preciso de um pouco mais de tempo para organizar aquilo que acabou de acontecer.
Hoje consigo perceber melhor isso em mim.
Quando recebo uma informação nova, principalmente quando envolve uma situação que não conheço, costumo observar primeiro.
Observo o ambiente.
As pessoas.
A maneira como elas conversam.
Como reagem.
O que parece ser esperado naquele lugar.
Depois tento organizar essas informações para descobrir como devo agir.
É como se minha cabeça precisasse montar um mapa antes de começar a caminhada.
Eu observo antes de entrar em cena
Existe outra coisa importante nessa observação.
Ela não serve apenas para eu entender o que está acontecendo.
Também serve para eu aprender a me comportar socialmente.
Minha observação funciona um pouco como o laboratório de um ator antes de interpretar um novo personagem.
O ator estuda o personagem.
Observa seus gestos.
Sua maneira de falar.
Suas reações.
Entende o ambiente em que ele está.
Experimenta.
Treina.
Só depois entra em cena.
Eu faço algo parecido em algumas situações sociais.
Quando chego a um ambiente novo, observo como as pessoas se comportam.
Como conversam.
Quando fazem uma brincadeira.
Quando é melhor falar ou ficar em silêncio.
Como demonstram interesse.
Como discordam.
O que parece natural naquele grupo.
Vou aprendendo aquelas regras que muitas vezes ninguém explica.
Não faço isso para mudar as pessoas.
Também não faço para manipulá-las.
Faço porque quero entender como posso me apresentar naquele ambiente sem causar estranhamento desnecessário.
Quero ser aceito.
Quero participar.
Quero estar com as pessoas sem que meu jeito natural seja interpretado como algo estranho ou desagradável.
Então observo, aprendo e adapto.
É uma espécie de máscara social.
Mas, para mim, essa máscara não significa deixar de ser quem sou.
É uma maneira de encontrar uma forma de convivência que funcione melhor.
Quando tudo acontece dentro do que eu esperava
Quando consigo observar previamente e entender o funcionamento daquele ambiente, as coisas tendem a ficar mais fáceis.
Eu já tenho algumas estratégias.
Já sei mais ou menos o que esperar.
Já construí um caminho mental.
Isso não significa que tudo seja automático.
Mas existe uma referência.
É como entrar em uma peça depois de ensaiar.
Eu sei onde começa.
Sei mais ou menos o que pode acontecer.
Tenho algumas respostas preparadas.
Consigo seguir.
O problema começa quando o roteiro muda
Minhas maiores dificuldades aparecem justamente nas situações que eu não consegui prever pela observação anterior.
Pode acontecer alguma coisa inesperada.
Alguém pode reagir de uma maneira que eu não imaginava.
Uma situação pode mudar rapidamente.
Pode surgir uma pergunta para a qual eu não preparei uma resposta.
Ou uma regra social que eu ainda não consegui entender.
É como se o ator estivesse no palco e alguém mudasse o roteiro de repente.
Nesse momento, preciso improvisar.
E improvisar socialmente pode ser muito difícil para mim.
Eu posso ficar perdido por alguns instantes.
Posso não saber imediatamente o que falar.
Posso precisar me afastar mentalmente da situação para tentar entender o que aconteceu.
Preciso reorganizar tudo.
O problema não é apenas o que aconteceu. É o fato de eu não ter encontrado uma estratégia para aquilo.
Quando preciso improvisar demais
Uma situação inesperada, sozinha, talvez eu consiga resolver.
O problema é quando várias acontecem seguidas.
Uma mudança.
Depois outra.
Uma conversa difícil.
Mais uma informação.
Outro comportamento que eu não esperava.
Outra situação que exige uma resposta rápida.
É como se eu precisasse criar novos caminhos enquanto ainda estou caminhando.
Isso vai consumindo energia.
Por fora, talvez eu ainda pareça estar funcionando normalmente.
Mas, por dentro, estou fazendo muito esforço para continuar acompanhando tudo.
É aí que eu posso chegar ao que costumo chamar, de maneira pessoal, de “enxaqueca social”.
Não estou usando essa expressão como diagnóstico médico.
É o meu jeito de descrever aquele esgotamento que pode aparecer depois de passar muito tempo observando, interpretando, calculando e tentando me adaptar socialmente.
Nem toda pausa é falta de capacidade
Por isso, hoje tento olhar para essas situações de outra maneira.
Se eu demoro alguns segundos para responder, isso não significa necessariamente que não entendi.
Se fico em silêncio, não significa que não tenho nada a dizer.
Se preciso observar antes de agir, não significa que não sei fazer.
Às vezes, estou processando.
Estou tentando entender.
Estou procurando o caminho.
E, quando o caminho que eu conhecia muda, preciso construir outro.
Durante muito tempo eu não sabia explicar isso
Antes de saber que sou autista, eu não tinha todas essas palavras.
Eu apenas percebia que algumas situações eram mais fáceis quando eu conseguia observar primeiro.
Também percebia que algumas situações sociais eram muito mais cansativas quando aconteciam coisas que eu não esperava.
Eu não pensava:
“Estou fazendo uma estratégia de adaptação social.”
Eu simplesmente fazia.
Hoje consigo olhar para trás e perceber que muitas dessas estratégias fizeram parte da minha maneira de aprender a conviver com o mundo.
Talvez eu tenha passado boa parte da vida fazendo um laboratório sem saber que era um laboratório.
Observando.
Experimentando.
Errando.
Corrigindo.
Tentando novamente.
E criando, aos poucos, minhas próprias estratégias.
Hoje eu me conheço um pouco melhor
O diagnóstico não me transformou em outra pessoa.
Mas me ajudou a entender algumas coisas sobre mim.
Hoje sei que posso precisar de um tempo maior para organizar determinadas informações.
Sei que observar antes de agir pode ser uma estratégia importante para mim.
Sei também que situações inesperadas podem exigir muito mais esforço.
E sei que, quando preciso improvisar socialmente por muito tempo, posso chegar ao meu limite.
Isso não significa que eu não consiga me adaptar.
Eu consigo.
Aprendi muitas coisas ao longo da vida.
Mas adaptação também pode exigir energia.
Talvez essa seja uma das coisas que mais gostaria que as pessoas entendessem:
aquilo que parece simples por fora nem sempre é simples por dentro.
Às vezes, você está vendo apenas uma pequena pausa.
Eu posso estar reorganizando um mundo inteiro dentro da cabeça.
Por isso, quando eu demorar um pouco para responder, talvez eu não esteja perdido.
Talvez eu esteja apenas procurando o próximo passo.
Eu não sou lento.
Às vezes, estou processando.

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