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O rótulo da timidez

Desde criança, me chamavam de tímido. No começo, eu nem sabia exatamente o que essa palavra significava. Ela foi entrando na minha vida aos poucos, como tantas outras coisas que eu aprendi observando, escutando, juntando pedaços. Não me incomodava. Era apenas um nome que davam ao meu jeito de ser.

Eu sempre fui mais quieto. Observador. Gostava de ficar no meu canto, pensar, olhar, entender o mundo sem precisar participar dele o tempo todo. Isso nunca foi sofrimento para mim. Era o meu funcionamento natural. Eu acreditava que era assim que eu era, e estava tudo bem.

O problema começou quando esse rótulo saiu do campo neutro e entrou no campo moral.

Quando passei a participar das reuniões da igreja, ouvi algo que mudou completamente o peso daquela palavra. Pregadores diziam, em tom de certeza absoluta, que pessoas tímidas não tinham parte com Deus. Que a timidez era sinal de falta de fé. Que quem era tímido estava condenado ao inferno.

Eu não tinha ferramentas para questionar aquilo. Eu levava as palavras ao pé da letra. Se diziam que era assim, então devia ser verdade. E, se era verdade, então havia algo profundamente errado comigo.

Passei a me perguntar, com angústia: será que sou mesmo tímido? E, se sou, será que estou condenado?

Aquilo foi devastador. Não porque eu tivesse medo de Deus, mas porque comecei a acreditar que o meu jeito de existir era incompatível com Ele. Como se o silêncio fosse pecado. Como se observar fosse falha moral. Como se não falar fosse ausência de fé.

A timidez, que antes não me causava nenhum sofrimento, passou a ser uma ameaça espiritual. Um rótulo que agora vinha carregado de culpa, medo e condenação.

Hoje, olhando para trás, eu entendo algo que naquela época ninguém soube me explicar: eu não era tímido. Eu era, e sou: autista.

Meu silêncio não era medo das pessoas. Era processamento. Minha distância não era rejeição do outro. Era necessidade de organização interna. Eu não evitava o mundo por insegurança, mas porque funciono melhor observando do que performando.

O erro não foi meu. O erro foi tentar encaixar um funcionamento neurológico diferente dentro de uma régua moral estreita.

Com o tempo, esse discurso religioso foi se transformando dentro de mim em ansiedade, culpa e confusão. Não porque a fé fosse ruim, mas porque ela foi usada sem cuidado, sem empatia, sem compreensão da diversidade humana.

Hoje, eu sei que Deus não me rejeita pelo meu jeito de ser. Sei que silêncio não é pecado. Sei que introspecção não é condenação.

O que me feriu não foi Deus. Foram as interpretações humanas que confundiram personalidade, neurodivergência e espiritualidade.

Escrever isso agora é um ato de reconciliação. Não apenas com a fé, mas comigo mesmo. É dizer para aquele menino quieto, observador, que gostava de ficar no canto: você nunca esteve errado. Você nunca esteve condenado. Você apenas ainda não tinha palavras para explicar quem você era.

Hoje eu tenho.

E elas

me libertam.








Comentários

  1. Fantástico Vilmar, ler sua história, saber um pouco sobre seus desafios, suas dores, principalmente no que rege o âmbito espiritual e saber que aprendeu a lidar com tudo isso simplesmente se observando e compreendendo o mundo a sua volta, e mais sabendo lidar com ele e superação de auto valor!!!! Deus o abençoe meu amigo, meu irmão!

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